Entre Baal e Moloque

O Brasil precisa parar de sacrificar o próprio futuro!

A política brasileira atual tem sido marcada por uma dicotomia quase religiosa: de um lado, “Não sacrifique seus filhos a Baal, vote Moloque!”; do outro espectro político: “Não sacrifiquem vossos filhos a Moloque, votem Baal!”. A metáfora é propositalmente forte. Ela revela que o debate público foi capturado por uma lógica de antagonismo absoluto, onde o adversário não é apenas alguém com ideais divergentes, mas uma ameaça moral a ser exterminada a qualquer custo.

O problema é que, enquanto essa disputa simbólica é intensificada, o Brasil permanece estagnado no tempo e, em muitos aspectos, retrocede. Há uma educação deficiente gerando analfabetos funcionais; um assistencialismo exacerbado gerando baixa produtividade; a insegurança jurídica, com uma Suprema Corte que extrapola suas funções ao tomar para si o poder de legislar, executar e julgar; a desigualdade de oportunidades; uma segurança pública que não defende o cidadão, mas sim o criminoso; e uma máquina pública ineficiente. Problemas estes que atravessam governos, partidos e ideologias. Ainda assim, o eleitor é constantemente convocado a escolher não o melhor projeto, mas o “mal menor”.

Essa dinâmica cria um ciclo vicioso. A política deixa de ser um espaço de construção de soluções para ser transformada em um campo de batalha emocional. Narrativas substituem propostas; lealdades cegas substituem o pensamento crítico; e, no centro de tudo isso, está uma consequência silenciosa, porém profunda: o sacrifício das futuras gerações.

Quando se vota movido apenas pela fobia do outro espectro político, abre-se mão de exigir qualidade, planejamento e responsabilidade. Aceitam-se erros, justificam-se falhas e relativizam-se princípios, contanto que “o nosso lado” vença. É nesse momento que o verdadeiro sacrifício acontece: não de forma literal, como na metáfora, mas na forma de oportunidades perdidas, de reformas adiadas e de um país que deixa de construir um futuro melhor para seus filhos.

Superar essa dicotomia não significa adotar uma falsa neutralidade ou ignorar diferenças ideológicas. Significa, antes de tudo, recusar a lógica binária que empobrece o debate público; significa exigir mais do que slogans e inimigos em comum. Significa perguntar: qual é o projeto? Quais são as metas? Como isso melhorará, concretamente, a vida das pessoas?

Um projeto de mudança para o Brasil precisa estar ancorado em pilares claros: educação de qualidade como prioridade absoluta; segurança pública com combate eficaz ao crime organizado, endurecimento de penas e estabelecimento do direito penal do inimigo aos faccionados e membros de organizações terroristas; responsabilidade fiscal aliada à eficiência do gasto público; segurança jurídica para estimular investimentos; e um ambiente político que valorize a transparência e a meritocracia. Mais do que isso, precisa resgatar a ideia de que a política é um instrumento do futuro, não de revanche.

O eleitor, nesse contexto, tem um papel decisivo. É preciso romper com o comportamento de torcida organizada e assumir a postura de cidadão exigente. Isso implica avaliar candidatos e propostas com critérios objetivos, cobrar coerência e rejeitar o discurso fácil que reduz tudo a um “nós contra eles”.

A frase inicial expõe o absurdo da escolha imposta: trocar um sacrifício por outro, como se não houvesse alternativa. Mas há. E essa alternativa começa com uma mudança de mentalidade. Começa ao rejeitar o discurso de quem, com mais de vinte anos no poder, diz que irá, pela sexta vez, tirar o Brasil do mapa da fome ou que irá, desta vez, consertar o país. É rejeitar o discurso do filho que promete ser diferente do pai, mas que apenas acena com o indulto aos condenados do 8 de janeiro caso seu pai seja anistiado. É rejeitar o discurso daquele que se diz diferente do centrão, da esquerda ou “do sistema”, mas que, conveniente e sistematicamente, vota junto com eles. Não se trata de escolher entre Baal ou Moloque — trata-se de parar de sacrificar.

O Brasil não precisa de mais uma eleição decidida pelo medo. Precisa de uma eleição decidida pela esperança — não uma esperança vazia, mas fundamentada em propostas concretas e no compromisso real com o futuro. Porque, no fim das contas, a pergunta que deveria guiar o voto não é “quem derrota meu inimigo?”, mas sim: “quem possui a missão de construir o país que eu quero deixar para os meus filhos?”.

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