Presença do princípio ativo versus segurança sanitária
Uma análise química realizada pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp identificou que cinco marcas de canetas emagrecedoras ilegalmente importadas do Paraguai possuem o princípio ativo tirzepatida, a mesma molécula utilizada no medicamento Mounjaro, do laboratório Eli Lilly. O estudo, encomendado pela reportagem do jornal Folha de S.Paulo, avaliou amostras das marcas Tirzedral, TG, Lipoless, Tirzec e Gluconex, confirmando que a estrutura molecular e a concentração do componente principal correspondiam ao indicado nos rótulos.
A revelação gerou repercussão imediata na região da tríplice fronteira, onde o comércio informal desses produtos nas redes sociais atrai compradores brasileiros devido à disparidade de preços. Enquanto o tratamento oficial com Mounjaro pode custar cerca de R$ 3.500 no mercado nacional, as versões genéricas ou similares paraguaias são adquiridas por valores significativamente inferiores, variando entre R$ 430 e R$ 1.300 no mercado paralelo.
Apesar da confirmação da presença da substância pelas técnicas de espectrometria e ressonância magnética, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu uma nota técnica contestando de forma contundente as interpretações de que o teste validaria a segurança ou a eficácia dos medicamentos paraguaios. A agência destacou que o CIATox não é um centro de bioequivalência credenciado e que a análise laboratorial pontual omitiu critérios fundamentais de controle sanitário.
De acordo com o órgão regulador brasileiro, a mera detecção da substância ativa não atesta que o produto é idêntico ou seguro. Os testes da Unicamp não avaliaram a presença de impurezas, contaminantes por metais pesados, a esterilidade da solução injetável ou os subprodutos gerados pela degradação do material. Mais importante ainda: não foram conduzidos ensaios de biodisponibilidade, essenciais para demonstrar como o organismo absorve o composto líquido.
A Eli Lilly, detentora da patente global da tirzepatida, informou que não fornece o insumo farmacêutico ativo para os laboratórios que operam no Paraguai, indicando que a matéria-prima utilizada no país vizinho provém de fontes alternativas não auditadas. A comercialização e a importação dessas marcas permanecem proibidas no Brasil, e as autoridades de segurança pública reforçam que o transporte e a aquisição dessas canetas configuram infrações legais, que vão do crime de contrabando à receptação de produtos sem registro.







