Em dois vídeos publicados no Instagram na noite de 24 de junho, Michelle Bolsonaro expôs uma disputa que vinha sendo travada longe dos holofotes. A ex-primeira-dama criticou a aproximação de lideranças do PL com Ciro Gomes, acusou aliados de desrespeitarem decisões de Jair Bolsonaro e revelou um conflito com o senador Flávio Bolsonaro.
Ao longo das gravações, Michelle apresenta sua versão sobre acontecimentos recentes envolvendo o Partido Liberal, a disputa política no Ceará e os bastidores da família Bolsonaro. Em um relato marcado por críticas, acusações de deslealdade e referências constantes ao ex-presidente Jair Bolsonaro, a ex-primeira-dama transformou uma divergência regional em um debate nacional sobre os rumos do bolsonarismo.
“Não dá mais para ficar calada”
Michelle inicia o vídeo afirmando que permaneceu em silêncio por muito tempo para evitar expor sua família em meio ao período mais difícil enfrentado por Jair Bolsonaro. Segundo ela, porém, o volume de ataques e informações falsas envolvendo seu nome tornou impossível continuar sem se manifestar.
A ex-primeira-dama afirma ter sido alvo de ataques promovidos por pessoas que se apresentam como apoiadores de Bolsonaro e relata que parte dessas críticas se intensificou durante o período em que o ex-presidente enfrentava restrições judiciais e problemas de saúde.
Segundo Michelle, a decisão de gravar os vídeos ocorreu após sucessivos episódios que, em sua avaliação, ultrapassaram os limites do debate político e passaram a atingir sua honra e sua família.
A defesa do trabalho realizado no PL Mulher
Uma parte significativa da gravação é dedicada à defesa de sua atuação à frente do PL Mulher.
Michelle relembra que assumiu a presidência nacional do movimento em 2023, após convite de Jair Bolsonaro e do presidente nacional do partido, Valdemar Costa Neto. Segundo ela, a estrutura feminina da legenda praticamente precisou ser construída do zero.
A ex-primeira-dama afirma ter percorrido o país organizando diretórios estaduais e municipais e destaca os resultados obtidos nas eleições municipais de 2024, quando o PL ampliou significativamente o número de mulheres eleitas.
Ao fazer esse balanço, Michelle rebate críticas que, segundo ela, tentam minimizar sua participação política dentro do partido.
O Ceará no centro da disputa
O principal foco político da manifestação é a situação do Ceará.
Michelle afirma que Jair Bolsonaro desejava que o PL disputasse as duas vagas ao Senado no estado, sendo uma delas destinada à vereadora Priscila Costa. Segundo a ex-primeira-dama, essa decisão teria sido tomada em conjunto por ela, Jair Bolsonaro e Valdemar Costa Neto.
No entanto, de acordo com seu relato, lideranças locais passaram a atuar para retirar Priscila da disputa e abrir espaço para uma composição política envolvendo o ex-ministro Ciro Gomes.
Michelle sustenta que a movimentação contraria diretamente a vontade expressa por Jair Bolsonaro.
“Priscila será candidata. O número 222 deverá ser dado a ela”, afirmou ao relatar um recado que, segundo ela, teria sido enviado pelo ex-presidente à direção partidária.
A ex-primeira-dama classifica qualquer tentativa de descumprir essa determinação como um ato de deslealdade ao líder político da direita.
As críticas a Ciro Gomes
O trecho mais contundente do vídeo é dedicado às críticas contra uma eventual aproximação com Ciro Gomes.
Michelle relembra declarações feitas pelo ex-ministro ao longo dos últimos anos contra Jair Bolsonaro e sua família. Segundo ela, Ciro foi um dos principais responsáveis pela popularização de ataques que ajudaram a desgastar a imagem do ex-presidente durante e após a pandemia.
Durante o vídeo, Michelle também resgatou declarações antigas de Ciro Gomes contra os filhos de Jair Bolsonaro. Entre os exemplos citados, ela lembrou ocasiões em que o pré-candidato ao governo do Ceará pelo PSDB classificou os herdeiros do ex-presidente como corruptos e utilizou a expressão “ovos de serpentes fascistóides” para se referir aos integrantes da família Bolsonaro. Para a ex-primeira-dama, a defesa de uma aliança com Ciro ignora anos de ataques públicos dirigidos não apenas a Jair Bolsonaro, mas também aos seus filhos e aliados políticos.
Ela também questiona a coerência de lideranças que agora defendem uma aproximação com alguém que, durante anos, esteve entre os mais duros críticos do bolsonarismo.
Na avaliação de Michelle, o PL deveria apoiar o senador Eduardo Girão (NOVO) no primeiro turno das eleições estaduais, por considerá-lo o candidato mais alinhado às pautas conservadoras e aos valores defendidos pela direita.
O episódio envolvendo André Fernandes
Michelle também comentou o evento realizado no Ceará para o lançamento da pré-candidatura de Eduardo Girão.
Segundo ela, durante o encontro, apoiadores manifestaram resistência à possibilidade de uma aproximação entre setores do PL e Ciro Gomes. A ex-primeira-dama afirma que decidiu abordar o assunto publicamente porque considerava necessário alertar lideranças do partido sobre o risco político e ideológico daquela articulação.
Ela nega ter feito críticas pessoais ao deputado André Fernandes e afirma que sua manifestação teve como objetivo questionar exclusivamente a estratégia adotada no estado.
Ainda assim, o episódio se tornou um dos pontos centrais da crise interna que se desenrolaria nos dias seguintes.
O conflito com Flávio Bolsonaro
A parte mais delicada do vídeo ocorre quando Michelle passa a narrar sua relação com o senador Flávio Bolsonaro após a repercussão do evento no Ceará.
Segundo a ex-primeira-dama, ao retornar para Brasília, ela encontrou manifestações públicas de Flávio em defesa da articulação política conduzida por aliados no estado.
Michelle afirma que tentou contato diversas vezes antes de conseguir conversar com o senador.
O relato da conversa é um dos momentos mais fortes de toda a gravação.
De acordo com Michelle, Flávio teria afirmado que ela deveria permanecer afastada das decisões partidárias e que não teria experiência suficiente para participar das articulações políticas do partido.
“Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou. Disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”, declarou.
A ex-primeira-dama afirma que, desde então, optou por respeitar a posição do senador e se recolher das discussões internas.
Acusações de articulação coordenada
Michelle também levanta suspeitas sobre a forma como as críticas contra ela foram conduzidas após o episódio do Ceará.
Segundo seu relato, as manifestações feitas por Flávio e por outros membros da família Bolsonaro apresentavam semelhanças que lhe causaram estranheza.
Ela afirma ter tido a impressão de que os posicionamentos foram coordenados, embora não apresente provas públicas dessa articulação.
A declaração amplia o alcance político do conflito ao sugerir que a divergência não se limitou a uma discordância isolada, mas envolveu diferentes figuras influentes do bolsonarismo.
Muito além de uma disputa regional
Embora o Ceará apareça como ponto de partida da crise, o conteúdo dos vídeos revela uma disputa mais ampla.
Ao longo de toda a gravação, Michelle reforça repetidamente que suas posições refletem decisões tomadas por Jair Bolsonaro antes das restrições impostas ao ex-presidente. Em contraste, ela sugere que parte da estrutura partidária passou a adotar caminhos diferentes daqueles que teriam sido definidos pelo líder conservador.
A estratégia narrativa utilizada pela ex-primeira-dama coloca no centro do debate uma questão que há meses circula nos bastidores da direita: quem possui legitimidade para interpretar e executar a vontade política de Jair Bolsonaro.
Ao tornar públicas divergências envolvendo Flávio Bolsonaro, André Fernandes, Eduardo Girão, Priscila Costa e dirigentes do Partido Liberal, Michelle levou para o debate público uma disputa de poder que até então permanecia restrita aos corredores da política.
O resultado é a exposição de uma ferida que há tempos vinha sendo comentada nos bastidores do bolsonarismo e que agora passa a influenciar diretamente as articulações para as eleições de 2026.







